Introdução
Uma pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que a maioria das fábricas brasileiras ainda luta para conseguir linhas de crédito, com os juros sendo o principal entrave. A “Sondagem Especial nº 107 – Condições de Acesso ao Crédito em 2026” entrevistou 1.701 empresas de diferentes portes, registrando que 76% das que buscaram financiamento de curto ou médio prazo apontaram os custos elevados como o maior obstáculo. Em operações de longo prazo, o problema ficou em 69%.
Contexto Econômico e a Selic
A análise da CNI destaca que a taxa básica de juros, a Selic, iniciou 2026 em 15% ao ano, mas ainda se encontra em 13,75% após cortes graduais. Essa defasagem entre a política monetária e o custo real do crédito faz com que as empresas continuem pagando juros que não refletem imediatamente as mudanças do Banco Central.
Garantias Reais e Burocracia
Além dos juros, 33,4% das empresas apontaram a exigência de garantias reais, como imóveis, como segundo maior problema nas linhas de curto e médio prazo. Nos financiamentos de longo prazo, 31,5% citaram essa barreira. A burocracia também desempenha um papel relevante, sendo a terceira maior objeção em 13,6% das situações de curto prazo, enquanto no longo prazo a falta de prazo de carência adequado preocupa 18,9% dos entrevistados.
Inadimplência e Falta de Acesso
O levantamento mostra que quase metade (49,9%) das empresas industriais não buscou renovar ou contratar novas linhas de crédito de curto e médio prazo durante o período analisado. Apenas 22,9% conseguiram, enquanto 7,5% tentaram e falharam. Em financiamentos de longo prazo, a taxa de empresas que não buscaram crédito subiu para 54%, com 9,2% sendo frustradas.
Impacto no Porte da Empresa
As pequenas indústrias sofrem mais. No curto e médio prazo, 32% delas ficaram frustradas, em comparação com 28,4% das médias e 20,3% das grandes. No longo prazo, a frustração foi ainda maior: 48,2% das pequenas, 48,1% das médias e 29,9% das grandes não conseguiram acessar os recursos.
Principais Finalidades do Financiamento
O capital de giro continua sendo a principal razão para buscar crédito, representando 60% das solicitações de curto e médio prazo e 28,7% nas de longo prazo. Investimentos em máquinas e equipamentos e em construções são citados em 23,6% e 11,6% das solicitações de longo prazo, respectivamente.
Propostas para Melhorar o Acesso
Os empresários apontaram três medidas que poderiam facilitar o acesso ao crédito: redução de custos tributários e administrativos (38,4% nas linhas de curto e médio prazo), ampliação das linhas de crédito públicas (22,8% nas mesmas linhas) e simplificação das exigências das instituições financeiras (21,1% nas linhas de curto e médio prazo).
Conclusão
O cenário demonstra que, apesar de uma política monetária em declínio, o custo do crédito permanece alto, sobretudo para as empresas de menor porte. A combinação de juros elevados, exigências de garantias e burocracia cria um ambiente de frustração que pode frear a expansão industrial. Para que a indústria brasileira se mantenha competitiva, será necessário alinhar a política de juros à realidade do mercado, reduzir a carga tributária sobre o capital de giro e simplificar os processos de concessão de crédito, especialmente nas linhas de longo prazo.