O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, deverá influenciar o clima brasileiro de maneira heterogênea entre 2026 e 2027, segundo a Embrapa.
Na região Centro‑Oeste, a orientação técnica aponta para a necessidade de antecipar medidas que atenúem os efeitos da seca. Mato Grosso e Goiás estão na lista de estados com maior risco, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul pode registrar chuvas mais intensas. Além da estiagem, Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal enfrentarão atraso no início das chuvas e ondas de calor.
Essas informações fazem parte de uma das cinco notas técnicas lançadas pela Embrapa, que traz recomendações específicas para cada região e estratégias de gestão de riscos climáticos associados ao El Niño 2026/2027.
Período crítico
A nota técnica destaca que o Centro‑Oeste pode passar por um período crítico entre setembro e novembro e de novembro de 2026 a janeiro de 2027, sendo este último o intervalo mais seco.
O atraso das primeiras chuvas pode comprometer a condição de semeadura da safra de verão. O documento detalha:
- Setembro a novembro: atraso na regularização das chuvas, mantendo o balanço hídrico do solo negativo;
- Novembro a janeiro: pico de severidade da seca, com probabilidades superiores a 70 % de chuvas abaixo da média em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.
Impactos nas culturas
Em Mato Grosso e Goiás, os principais riscos são atraso do plantio, déficit hídrico e efeitos sobre culturas sucessoras da soja, como milho e algodão safrinha. No Distrito Federal, as orientações gerais devem ser combinadas com as específicas das culturas locais. Mato Grosso do Sul, por sua vez, apresenta um cenário distinto, com possibilidade de chuvas acima da média na primavera, embora veranicos ainda possam ocorrer durante a safra.
A Embrapa recomenda que os produtores não aguardem condições adversas para agir. Além do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), as medidas gerais incluem: aguardar umidade adequada antes da semeadura, manter o solo coberto, irrigar quando houver segurança hídrica e acompanhar previsões climáticas de forma contínua.
Rodrigo Garcia, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste (MS) e líder da plataforma regional do Centro‑Oeste, destaca que, apesar das adversidades previstas, o setor produtivo mantém expectativas de produtividade elevada, graças aos investimentos em tecnologia.
Orientações específicas da Embrapa para cada cultura na região Centro‑Oeste:
Soja e milho
- Escalonar a semeadura e escolher cultivares com maior tolerância ao estresse hídrico;
- Reavaliar a viabilidade do milho 2ª safra;
- Plantio de espécies de rápido crescimento (Crotalaria juncea ou milheto) logo nas primeiras chuvas para formação de biomassa antes da soja;
- Planejar o manejo de doenças foliares, especialmente no sul de MS.
Algodão
- Utilizar cultivares de ciclo mais longo no início da janela de plantio;
- Priorizar áreas descompactadas e com alta fertilidade em profundidade;
- Gerir rigorosamente o crescimento vegetativo com reguladores em períodos de seca.
Arroz de terras altas
- Evitar semeaduras tardias (a partir de janeiro/fevereiro);
- Mitigar picos térmicos para prevenir esterilidade de espiguetas, que ocorre com temperaturas acima de 35 °C na floração.
Feijão
- Prestar atenção ao estresse térmico para evitar abortamento massivo de flores;
- Aplicar inoculantes/bioinsumos apenas em condições de umidade adequada do solo.
Cana‑de‑açúcar
- Escolher variedades variadas;
- Usar irrigação de salvamento na rebrota/plantio;
- Na colheita, manter a palha sobre o solo e a rede de aceiros limpa para prevenir incêndios.
</ul