Repertório #04
A Orquestra Brasileira de Cantores Cegos abre sua quarta temporada de apresentações com o espetáculo “Repertório #04”, que aprofunda a pesquisa sobre o patrimônio imaterial brasileiro. O programa reúne 16 arranjos originais que dão vida a 17 canções, selecionadas entre manifestações regionais que vão do Norte ao Sul do país. Entre os destaques estão o congo do Espírito Santo, o Coco de Tebei de Pernambuco, a Bata do Feijão do Maranhão, as chulas baianas e as tradições de trabalho agrícola de Alagoas, Sergipe e Minas Gerais. A montagem também incorpora a musicalidade das comunidades quilombolas Kalunga, em Goiás, e de etnias indígenas como os Mehinako, do Xingu, os Guaranis do Rio de Janeiro e os Kaingang.
Com a nova fase, o acervo da orquestra chega a 66 arranjos e mais de 73 obras, refletindo a riqueza da tradição oral do grupo. A pesquisadora Renata Mattar conduziu a seleção musical, focando em cantos de trabalho agrícolas e rituais coletivos. “Busquei escolher as mais belas melodias, mas também cantigas que criassem conexões com os cantores, que fizessem sentido para eles”, disse Mattar.
O palco conta com 25 artistas: 13 cantores cegos, quatro com baixa visão, seis atores da Cia Poéticas da Cena Contemporânea, um pianista e o regente. A diretora cênica Rejane Arruda utilizou iluminação em alto‑contraste, projeção de sombras e deslocamentos espaciais do coro para enfatizar a performatividade da condição dos artistas. “Eles têm um a mais, e não um a menos”, observou Arruda, destacando que a ausência de visão implica numa temática do olhar e da percepção do mundo.
Para orientar os cantores sem a regência visual, o maestro Thomas Davison desenvolveu uma técnica baseada em estalos de dedos, palmas, batidas de pés e rotações do tronco. “Sou como os seus olhos, sou a partitura que eles precisam ler”, explicou o maestro, que precisou ressignificar todos os conceitos de regência que já havia aplicado.
Os arranjos vocais, assinados por Tarita de Souza, combinam canto coral, música instrumental e ruídos cotidianos, como a batida das bengalas no piso. A iniciativa também visa promover o reconhecimento profissional e a inclusão de pessoas com deficiência no mercado cultural. A cantora cega e integrante do coro, Joseni Vitorino, ressaltou: “Somos valorizados em mostrar o nosso potencial escondido ou até mesmo desacreditado, e hoje somos reconhecidos e tratados como artistas”.
Outra integrante, Lucinéia Santos, enfatizou o direito à igualdade de oportunidades: “Nós, além de termos uma característica, que é a deficiência, não somos a deficiência. Somos eficientes e podemos estar nos lugares onde nos dão oportunidades.” Ela contou que a orquestra foi um rumo para reerguer sua vida. Já Maria das Graças, contralto cega, relatou a mudança na autoestima: “Cheguei na orquestra com uma perda muito significativa da visão, eu estava com a autoestima muito baixa. E estar ali junto com outros componentes, tudo mudou. A música é o meu ar”.
A gestão do projeto fica a cargo da Associação Sociedade Cultura e Arte (SOCA Brasil), sediada em Vila Velha (ES). Desde a criação da proposta, em 2023, os shows registraram um público de 11 mil pessoas, ofereceram transporte gratuito a turmas da rede pública de ensino e criaram mais de 300 postos de trabalho diretos para artistas e técnicos.
O apoio da Lei Rouanet, que aprovou a captação de R$ 1 milhão para a nova etapa, reforça a importância da política cultural de incentivo à inclusão. Ao mesmo tempo, a Orquestra Brasileira de Cantores Cegos demonstra que a diversidade sensorial pode enriquecer a expressão artística e abrir portas para talentos que, historicamente, foram marginalizados. A quarta temporada não apenas celebra a riqueza musical do Brasil, mas também destaca a necessidade de continuar investindo em projetos que transformam vidas e ampliam o acesso cultural a todos.