Impacto econômico da suspensão
A suspensão das exportações de produtos de origem animal do Brasil para a União Europeia (UE) tem gerado um prejuízo estimado em US$ 16,8 milhões por mês aos exportadores de Goiás, de acordo com a análise de impacto da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg). Em 2025, Goiás já havia registrado US$ 190 milhões em exportações para o mercado europeu, sendo que, entre janeiro e julho de 2026, as vendas somaram apenas US$ 96 milhões, cerca de 14% abaixo do mesmo período de 2025.
As carnes bovinas representaram 90% das exportações de 2025, equivalendo a US$ 171 milhões. A Fieg prevê que o potencial de exportação perdido entre setembro e dezembro de 2026 será de US$ 3,83 milhões por mês, enquanto para 2027 a projeção sobe para US$ 11,5 milhões mensais. Somando os valores, o impacto potencial atinge US$ 16,8 milhões por mês, equivalente a 8,1% do total das exportações goianas de produtos de origem animal.
Entre os frigoríficos mais afetados estão unidades da JBS, em Mozarlândia, e da Minerva Foods, em Palmeiras de Goiás, que têm produção destinada ao mercado europeu de maior valor agregado.
Restrição europeia
A partir de 3 de setembro, a UE impôs restrições que proíbem a entrada no mercado europeu de carne de aves, bovina e suína, peixes de cultivo, mel, equinos, ovos e envoltórios, em decorrência do Regulamento Delegado (UE) 2023/905. O regulamento estabelece restrições ao uso de determinados antimicrobianos na produção animal, incluindo antibióticos.
A Comissão Europeia apontou que o Brasil não conseguiu comprovar que as exigências estão sendo efetivamente cumpridas ao longo de toda a cadeia produtiva, desde a criação dos animais até o abate.
Em nota, Saulo Nogueira, analista econômico da Fieg, alertou que a medida pode levar outros países a questionarem as condições de produção e a situação sanitária dos produtos brasileiros, com risco de redução ou até interrupção das importações. Ele destacou que “outros países podem adotar posturas semelhantes, como a Noruega, que também anunciou a mesma restrição por precaução”.
No setor de carne de frango, a expectativa é de que a suspensão seja revertida em novembro, após a conclusão da auditoria europeia. Para a carne bovina, no entanto, o período de restrição pode ser mais longo, com o produto brasileiro permanecendo fora do mercado europeu até meados de 2028, devido ao tempo necessário para adaptação da cadeia às novas exigências. O ciclo de vida dos bovinos pode durar de 24 a 36 meses, o que impede ainda a realização de uma auditoria europeia específica, já que o Brasil ainda não teria animais com o ciclo completo após a adoção do novo protocolo.
Saulo Nogueira enfatizou que a suspensão se trata de uma questão de capacidade de comprovação documental, e não de questões sanitárias sobre a carne brasileira.
Mercados alternativos
De acordo com a Fieg, as exportações de produtos de origem animal de Goiás e do Brasil para a UE têm apresentado trajetória de crescimento desde 2023. Por isso, o impacto comercial da restrição pode ser ainda maior do que o estimado inicialmente.
Como alternativa, a federação recomenda que os exportadores goianos busquem diversificar os mercados de destino, redirecionando parte da produção para a China, maior compradora de carne bovina brasileira, e os Estados Unidos, que vêm ampliando as importações. A Fieg também cita oportunidades em mercados asiáticos, como Japão, Indonésia e Coreia do Sul, como alternativas para reduzir a dependência do mercado europeu.
Medidas e recomendações
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou a Portaria SDA nº 1.617/2026, que proíbe o uso de antimicrobianos como aditivos melhoradores de desempenho animal no país e estabelece novos procedimentos de controle para a certificação sanitária. Desde 3 de setembro, os produtos de origem animal destinados ao mercado europeu só recebem a certificação sanitária internacional mediante comprovação do cumprimento das exigências da UE. O Mapa se comprometeu a encaminhar ao bloco a documentação atualizada e a reforçar os mecanismos de controle.
Para o setor bovino de Goiás, a Fieg destaca a importância de ativos que podem facilitar a adaptação às exigências europeias, como a rastreabilidade individual pelo Sisbov, o status de área livre de febre aftosa sem vacinação e a estrutura de controle sanitário reconhecida pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa).
A federação recomenda ainda que os exportadores:
- conheçam detalhadamente as exigências europeias,
- adequem os processos de produção e certificação,
- planejem as operações com antecedência,
- ampliem a busca por mercados alternativos no exterior.
Segundo a entidade, a estratégia pode reduzir os impactos da restrição e diminuir a depend