O Ofício e a Roda
Antes de qualquer jogo começar, a roda já carrega saberes que foram construídos ao longo de anos de prática, convivência e aprendizado. Esses conhecimentos, transmitidos de geração em geração, formam o Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desde o seu registro no Livro de Registro dos Saberes, em 21 de outubro de 2008, o ofício tem sido visto como a guardiã da tradição capoeira, responsável por ensinar golpes, ritmos, cantigas e rituais que sustentam a prática.
Embora o ofício seja um bem cultural registrado, ele está intrinsecamente ligado à própria roda. Na roda, corpo, som e palavra se entrelaçam: o berimbau orienta o jogo, o atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco complementam a musicalidade, e as cantigas funcionam como memória viva. O mestre ou mestra, portanto, não apenas ensina técnicas, mas também interpreta e mantém em circulação códigos e valores que evoluíram ao longo da história da capoeira.
História e Resiliência
A trajetória da capoeira reflete a luta da população negra no Brasil. Originada de influências africanas, a prática foi criminalizada pelo Código Penal de 1890 e associada à marginalidade por décadas. Mesmo diante de perseguições, os capoeiristas mantiveram a tradição viva, adaptando-se e resistindo. No século XX, surgiram as tradições Angola e Regional, que hoje coexistem com outras vertentes desenvolvidas em diversas regiões.
O reconhecimento internacional veio em 2014, quando a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) declarou a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Esse título destaca a roda como espaço de convivência, aprendizagem e preservação cultural, enquanto o ofício permanece registrado como Patrimônio Cultural do Brasil.
Reconhecimento e Inclusão
Em 11 de novembro de 2024, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou a revalidação do título de Patrimônio Cultural do Brasil atribuído ao Ofício. A decisão também alterou a denominação oficial de “Ofício dos Mestres da Capoeira” para “Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira”, reconhecendo explicitamente a presença e a atuação das mulheres na transmissão dos saberes. O processo de reavaliação considerou transformações ocorridas desde o registro inicial, incorporando informações de planos de salvaguarda, consultas aos detentores e ações desenvolvidas nos estados.
Essa mudança reforça a importância de incluir todas as vozes na preservação cultural. Ao reconhecer mestras como detentoras de conhecimento, a capoeira amplia a sua própria história, permitindo que novas gerações aprendam de quem realmente vive e pratica a arte. A revalidação também destaca a necessidade de ações de salvaguarda, como produção e preservação de acervos, pesquisas, mapeamentos e fortalecimento da participação dos detentores.
Em resumo, a capoeira continua a ser um espaço de memória e reinvenção, onde mestres e mestras mantêm vivos os saberes que atravessam gerações. O reconhecimento oficial e a inclusão de mulheres no título do ofício são passos significativos para garantir que essa manifestação cultural continue a florescer, respeitando suas raízes e abraçando sua evolução.
Com informações do Ministério da Cultura.